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  Devaneios

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Mohamed
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MensagemAssunto: Devaneios   Sab 5 Fev - 11:00

Naquele porto se comercializaza dois tipos de pescado. O pescado branco e o vermelho, sendo que o vermelho, mair raro, só havia nos messes mais frios.
Na naverdade o pescado branco eram de três espécies diferentes, mas quem tinham semelhante o tamanho e a coloração.
O pescado vermelho era uma dessas espécies, que adquiria a cor avermelhada na época da reprodução.

Além de peixe, naquele porto se comercializava também objetos de vidro e de bronze que vinham de terras, distantes e cereais de vilarejos e cidades mais próximas.

Fiquei duas semanas naquele porto, postergando minha partida.
Não que as tabernas ou acomodações fossem boas. Não eram.
Mas a idéia de me encontrer com outro sonhador me deixava nervoso.

Poderia ter partido antes, mas preferi esperar por um navio específico, ao qual eu conhecia seu capitão.
Um homem do mar que era muito experiente. Tinha uma conversa agradável e um vinho suave, mas muito potente.
Como não saia o que esperar desse encontro com outro sonhador, deixaria meus intrumentos na guarda do meu amigo capitão.

Se algo desse errado ou se o outro sonhador se mostrasse um inimigo, eu teria como voltar e manter minhas memórias do acontecido.
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Mohamed
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MensagemAssunto: Re: Devaneios   Sex 11 Fev - 18:17

Já tinha ouvido falar de outros sonhadores. Embora nunca tenha encontrado um sonhador consciente, conheci alguns que não guardavam lembranças de suas vivências no mundo onírico.

Numa das ilhas ao norte do continente vive um pintor. Encontramo-nos algumas vezes e conversamos longamente.
Ele consegue captar na tela um realismo impressionante das paisagens que pinta. No mundo desperto ele é um músico canadense.
Suas contrapartes, a onírica e a mundana, desconhecem uma à outra.

Se a sua música é inspirada pelos quadros que pinta, ou o contrário. Não sei dizer.
Depois de um desses nossos encontros, despertei e procurei, com a ajuda das runas, por seu alterego no mundo da vigília.
Compositor de fama local, não foi difícil encontrá-lo. Fingindo-me um empresário do ramo artístico, insinuei algumas perguntas por telefone. Esperava algo que mostrasse alguma lembrança de suas atividades no sonhar.

Dizia ele que acordava inspirado e começava a compor, mas nunca se lembrava do que havia sonhado. Já era assim a tanto tempo que isso nem o preocupava mais.
Não insisti nas perguntas para não incomodá-lo. Também não questionei seu Eu onírico sobre esse assunto.

Existe um jovem, que vive próximo às florestas de Uthar, que combate os repdantes que descem as colinas para saquear os vilarejos.
Eventualmente é morto por eles. E reaparece alguns dias depois, como se nada tivesse acontecido.
Pude encontrá-lo uma vez. E, apesar de aparentar uns 16 anos, possui uma aura madura. Desconfio ser ele um homem de idade avançada que, de alguma forma, manifesta uma versão de sua juventude no mundo onírico.
Conversamos pouco e ele nada podia falar sobre sua existência mundana. Na verdade, pouco se lembrava de suas próprias aventuras.

E eram essas coisas que passavam na minha mente quando o imediato avisou-me que o navio estava pronto para partir.
A pouca bagagem que eu tinha já havia sido levada e encontrei-a encima da cama, na minha cabine habitual. Descansei um pouco deitado, examinando os detalhes entalhados na madeira das paredes. Símbolos de sorte e proteção na maioria.

Então ouço uma batida na porta. Um dos tripulantes me informa que o capitão me convida à sua para jantar em uma hora.

Era uma refeição simples, mas bem preparada. Consistia de pão branco, um caldo verde e carne seca.
Notei que era uma comida especial, pois o caldo do resto da tripulação era mais ralo e o pão era escuro.
Embora a alimentação não ser necessária a um mago sonhador no mundo onírico, seria um insulto recusar, além de gerar estranhamento a quem estivesse por perto.

Apesar de jamais ter perguntado diretamente sobre minha origem, acredito que o velho capitão suspeite de minha condição.
Talvez por esse motivo me tenha em tão alta conta, e tornou-se o mais próximo do que posso chamar de amigo.
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Mohamed
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MensagemAssunto: Re: Devaneios   Sex 18 Fev - 14:43

Naquele porto se comercializava dois tipos de pescado. O pescado branco e o vermelho, sendo que o vermelho, mais raro, só era encontrado nos messes mais frios.
Na verdade o pescado branco era de três espécies diferentes, mas que tinham semelhante a região que habitavam, o tamanho e a coloração.
O pescado vermelho era uma dessas espécies, que adquiria a cor avermelhada na época da reprodução.

Além de peixe, comercializavam também objetos de vidro e de bronze que vinham de terras distantes e cereais de vilarejos e cidades mais próximas.

Fiquei duas semanas naquele porto, postergando minha partida.
Não que as tabernas ou acomodações fossem boas. Não eram.
Mas a idéia de me encontrar com outro sonhador me deixava nervoso.

A quase um mês, ao chegar na cidade azul, registrei-me na mesma pousada de sempre e lá havia uma carta endereçada a mim.
Ela havia chegado no mês anterior e não foi sem estranhamento que a recebi.
Estava escrito em português moderno, com algumas palavras em espanhol.

Na essência, era uma carta anônima, visto que o remetente não assinava e nem se apresentava.
Dizia apenas ser um “colega desbravador de novos mundos”, que estava ansioso por conhecer-me e que teria muitas informações para trocar.
Que tipo de informações seriam essas ele não menciona.

A principio fiquei preocupado. Seja quem for essa pessoa, tem conhecimentos prodigiosos.
Porque encontrar uma pessoa no mundo onírico não é tarefa difícil. Basta ter os conhecimentos certos ou contratar quem os tenha.
Mas descobrir um lugar que ainda vou estar requer investigação ou uma linha adivinhatória desconhecida.

Depois de muito refletir sobre esse estranho acontecimento, decidi ir ao encontro dessa pessoa e descobrir o que ele quer.
Apesar de apreensivo, pois podia ser algum tipo de armadilha, minha curiosidade por fim impeliu minha viagem.
Seria uma busca como tantas outras que fiz no mundo onírico, procurando tomos ancestrais, fórmulas mágicas ou objetos obscuros.

Poderia ter partido antes, mas preferi esperar por um navio específico, ao qual eu conhecia o capitão.
Um homem do mar que era muito experiente. Tinha uma conversa agradável e um vinho suave, mas muito potente.
Ele navegava pela costa e só raramente fazia um transporte ultramarinho. Portanto não demoraria mais de duas semanas para voltar ao porto, caso já tivesse partido.
Como não sabia o que esperar desse encontro com o outro sonhador, deixaria meus instrumentos na guarda do meu amigo capitão.

Se algo desse errado ou se o outro sonhador se mostrasse um inimigo, eu teria como voltar ao ponto de partida e manter minhas memórias do acontecido.
Nesse tipo de aventura o perigo está sempre próximo e já tinha experiência o suficiente para tomar algumas precauções.

Existiam seres antigos que não aprovavam nossa presença neste plano. Consideram uma invasão e, quando descobrem um sonhador, tentam aprisioná-lo ou matá-lo. Seja por suas próprias forças ou com ajuda de servos.
Essa carta bem poderia ser parte de um esquema para me capturar. Ou pior. Por isso separei de meus instrumentos um punhal curto de prata branca, que podia ferir até seres incorpóreos.

Já tinha ouvido falar de outros sonhadores que vagavam pelo mundo onírico em busca de conhecimento ou aventuras.
Embora nunca tenha encontrado um sonhador consciente, conheci alguns que não guardavam lembranças de suas vivências do mundo onírico no mundo desperto.

Numa das ilhas ao norte do continente vive um pintor. Encontramo-nos algumas vezes e conversamos longamente.
Ele consegue captar na tela um realismo impressionante das paisagens que pinta. No mundo desperto ele é um músico canadense.
Suas contrapartes, a onírica e a mundana, desconhecem uma à outra.

Se a sua música é inspirada pelos quadros que pinta, ou o contrário. Não sei dizer.
Depois de um desses nossos encontros, despertei e o procurei, com a ajuda das runas, por seu alterego no mundo da vigília.
Compositor de fama local, não foi difícil encontrá-lo. Fingindo-me um empresário do ramo artístico, insinuei algumas perguntas por telefone. Esperava algo que mostrasse alguma lembrança de suas atividades no sonhar.

Dizia ele que acordava inspirado e começava a compor, mas nunca se lembrava do que havia sonhado. Já era assim a tanto tempo que isso nem o preocupava mais.
Não insisti nas perguntas para não incomodá-lo. Também não questionei seu Eu onírico sobre esse assunto.

Existem coisas que devem permanecer como estão.

Existe um jovem, que vive próximo às florestas de Uthar, que combate os repdantes que descem as colinas para saquear os vilarejos.
Eventualmente é morto por eles, e reaparece alguns dias depois, como se nada tivesse acontecido.
Pude encontrá-lo uma vez. E, apesar de aparentar uns 16 anos, possui uma aura madura. Desconfio ser ele um homem de idade avançada que, de alguma forma, manifesta uma versão de sua juventude no mundo onírico.
Conversamos pouco e ele nada podia falar sobre sua existência mundana. Na verdade, pouco se lembrava de suas próprias aventuras.

E eram essas coisas que passavam na minha mente quando o imediato avisou-me que o navio estava pronto para partir.
A pouca bagagem que eu tinha já havia sido levada e encontrei-a encima da cama, na minha cabine habitual. Descansei um pouco deitado, examinando os detalhes entalhados na madeira das paredes e no teto. Símbolos de sorte e proteção, na maioria.

Então ouço uma batida na porta. Um dos tripulantes me informa que o capitão me convida à sua para jantar em uma hora.

Era uma refeição simples, mas bem preparada. Consistia de pão branco, um caldo verde e carne seca.
Notei que era uma comida especial, pois o caldo do resto da tripulação era mais ralo e o pão era escuro.
Embora a alimentação não ser necessária a um mago sonhador no mundo onírico, seria um insulto recusar, além de gerar estranhamento a quem estivesse por perto.

Depois do jantar, o capitão apresentou uma garrafa de seu melhor vinho e conversamos até tarde.
Falávamos sobre as rotas comerciais marítimas e por estradas, as várias formas de se chegar a lugares interessantes ou importantes, e também onde se hospedar e comer.

Apesar de jamais ter perguntado diretamente sobre minha origem, acredito que o velho capitão suspeite de minha condição.
Talvez por esse motivo me tenha em tão alta conta, e tornou-se o mais próximo do que posso chamar de amigo.

Ele contou também de coisas estranhas que ocorrem no mar por esses dias. Como ilhas e até continentes inteiros que surgem aonde antes era apenas o oceano. Disse ainda que algumas dessas ilhas tinham construções.
Mas detalhes ele não pode me dar, pois a tripulação evitou olhar para aquelas torres de alvenaria estranha, temendo que lhes causasse pesadelos ou coisa pior.

O Próprio capitão me dizia aquelas coisas com algum receio e confessou evitar aquelas águas a partir daquele dia.

Cinco dias depois de zarpar, o navio ancorou no porto de Ur. Podia-se ver por detrás das grandes muralhas que protegia a cidade, os telhados de terracota e os pináculos dos templos. Ao longe, encoberta pela névoa, quase não podia ser vista a torre do governo, onde vivia o governador.
Dizia-se que o governador não tinha forma humana. Fazia parte daquele povo que vivia nessa num passado extremamente remoto. Ele jamais saía da torre e passava suas ordens pelos monges que o atendiam.
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Fábio Leite
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MensagemAssunto: Re: Devaneios   Sex 18 Fev - 17:03

Muito bom, Murramédi. Tá melhor redigido que o Mil Nomes Cool FACE
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Mohamed
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MensagemAssunto: Re: Devaneios   Ter 22 Fev - 22:09

Porra! Quem me dera ter as manhas.
Valeu, Fabião.
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Mohamed
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MensagemAssunto: Re: Devaneios   Sex 4 Mar - 16:30

Antes de desembarcar, fui despedir-me do capitão. Deixei com ele um pequeno baú de madeira e couro, onde guardo os objetos que descobri no mundo onírico.
Chaves, amuletos e livros: Uma versão dos manuscritos Pinakóticos na língua dos povos do norte, um mapa detalhado e cheio de legendas e anotações, feitas por mim, dos lugares que visitei nesta terra e o “Livro do Sr. Carter”.
O Sr. Carter foi um sonhador que desbravou grande parte do mundo onírico. Viveu muitas aventuras e partiu em buscas perigosas.
Esse livro me foi, e ainda é, muito útil. Pois além da descrição dos lugares visitados por ele, tem ainda comentários sobre seus habitantes, criaturas e perigos de viagem.
Esse homem desapareceu em uma busca, mas tinha muitos conhecimentos e não duvido que reapareça algum dia.

Agradeci ao capitão pela viagem e ofereci alguns cristais azuis em pagamento, no que ele recusou. Disse que minha companhia foi um prazer e que guardaria meu baú com sua vida.

Ele desceu a rampa comigo até o cais. Foi quando me lembrei de um garoto que acompanhava o capitão em suas viagens. Ele se maravilhava com minhas estórias de terras distantes e dos objetos estranho que eu lhe mostrava.
Ao perguntar que fim ele teria levado, o capitão apenas sorriu e acenou. Ele tinha assuntos a tratar e eu também.

Então, saindo do porto e entrando numa rua com calçamento de vidro vulcânico, em busca de uma estalagem, me veio como um estalo a verdade.
Aquele não era o velho capitão que conheci faz muitos anos, mas seu filho com quem eu conversava, já adulto e em seu lugar!
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Mohamed
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MensagemAssunto: Re: Devaneios   Qua 16 Mar - 17:31

Naquele porto se comercializava dois tipos de pescado. O pescado branco e o vermelho, sendo que o vermelho, mais raro, só era encontrado nos messes mais frios.
Na verdade o pescado branco era de três espécies diferentes, mas que tinham semelhante as águas que habitavam, o tamanho e a coloração.
O pescado vermelho era uma dessas espécies, que adquiria a coloração na época da reprodução.

Além de peixe, comercializavam também objetos de vidro e de bronze que vinham de terras distantes e cereais de vilarejos mais próximos.

Fiquei duas semanas naquele porto, postergando minha partida.
Não que as tabernas ou acomodações fossem boas. Não eram.
Mas a idéia de me encontrar com outro sonhador me deixava nervoso.

A quase um mês, ao chegar na cidade azul, registrei-me na mesma pousada de sempre e lá havia uma carta endereçada a mim.
Ela havia chegado na semana anterior e não foi sem estranhamento que a recebi.
Estava escrito em português moderno, com algumas palavras em espanhol.
Isso eu achei realmente estranho, pois essas línguas, em forma escrita, eram desconhecidas naquele lugar.

Na essência, era uma carta anônima, visto que o remetente não assinava e nem se apresentava.
Dizia apenas ser um “colega desbravador de novos mundos”, que estava ansioso por conhecer-me e que teria muitas informações para trocar.
Que tipo de informações seriam essas ele não menciona.

A principio fiquei preocupado. Seja quem for essa pessoa, tem conhecimentos prodigiosos.
Porque encontrar uma pessoa no mundo onírico não é tarefa difícil. Basta ter os conhecimentos certos ou contratar quem os tenha.
Mas descobrir um lugar que ainda vou estar requer investigação ou uma linha divinatória desconhecida.

Depois de muito refletir sobre esse estranho acontecimento, decidi ir ao encontro dessa pessoa e descobrir o que ele queria de mim.
Apesar de apreensivo, pois podia ser algum tipo de armadilha, minha curiosidade por fim impeliu minha viagem.
Seria uma busca como tantas outras que fiz no mundo onírico, procurando tomos ancestrais, fórmulas mágicas ou objetos obscuros.
Agora o objeto da busca tomava a forma de uma pessoa, ou algo próximo disso.

Poderia ter partido antes, mas preferi esperar por um navio específico, ao qual eu conhecia o capitão.
Um homem do mar que era muito experiente. Tinha uma conversa agradável e um vinho suave, mas muito potente.
Ele navegava pela costa e só raramente fazia um transporte ultramarinho. Portanto não demoraria mais de duas semanas para voltar ao porto, caso já tivesse partido.
Ele estava como eu me lembrava dele, seu casaco de capitão talvez estivesse mais velho e puído nas mangas, mas o reconheci imediatamente. Não reconheci, por outro lado, nenhum dos tripulantes.

E notei uma ausência: Lembrava bem do filho do capitão, rapaz esperto e curioso. Muito parecido com o pai. Passava o dia na proa, junto aos marinheiros. Adorava minhas estórias e eu adorava contá-las e recontá-las.
Bons ouvidos são difíceis de encontrar, seja do mundo onírico ou do mundo desperto.
Como não sabia o que esperar desse encontro com o outro sonhador, deixaria meus instrumentos na guarda do meu amigo capitão.

Se algo desse errado ou se o outro sonhador se mostrasse um inimigo, eu teria como voltar ao ponto de partida e manter minhas memórias do acontecido.
Nesse tipo de aventura o perigo está sempre próximo e já tinha experiência o suficiente para tomar algumas precauções.

Existiam seres antigos que não aprovavam nossa presença neste plano. Consideram uma invasão e, quando descobrem um sonhador, tentam aprisioná-lo ou matá-lo. Seja por suas próprias forças ou com ajuda de servos.
Essa carta bem poderia ser parte de um esquema para me capturar. Ou pior. Por isso separei de meus instrumentos um punhal curto de prata branca, que podia ferir até seres incorpóreos.
Não que eu esperasse algum tipo de luta, geralmente o simples de eu levá-lo comigo já era suficiente para afastar essas criaturas.

Já tinha ouvido falar de outros sonhadores que vagavam pelo mundo onírico em busca de conhecimento ou aventuras.
Embora nunca tenha encontrado um sonhador consciente, conheci alguns que não guardavam lembranças de suas vivências do mundo onírico no mundo desperto.

Numa das ilhas ao norte do continente vive um pintor. Encontramo-nos algumas vezes e conversamos longamente.
Ele consegue captar na tela um realismo impressionante das paisagens que pinta. No mundo desperto ele é um músico canadense.
Suas contrapartes, a onírica e a mundana, desconhecem uma à outra.

Se a sua música é inspirada pelos quadros que pinta, ou o contrário. Não sei dizer.
Depois de um desses nossos encontros, despertei e o procurei, com a ajuda da internet, por seu alterego no mundo da vigília.
Compositor de fama local, não foi difícil encontrá-lo. Fingindo-me um empresário do ramo artístico, insinuei algumas perguntas por telefone. Esperava algo que mostrasse alguma lembrança de suas atividades no sonhar.

Dizia ele que acordava inspirado e começava a compor, mas nunca se lembrava do que havia sonhado. Já era assim a tanto tempo que isso nem o preocupava mais.
Não insisti nas perguntas para não incomodá-lo. Também não questionei seu Eu onírico sobre esse assunto.
Existem coisas que devem permanecer como estão.

Existe um jovem, que vive próximo às florestas de Uthar, que combate os repdantes que descem as colinas para saquear os vilarejos.
Eventualmente é morto por eles, e reaparece alguns dias depois, como se nada tivesse acontecido.
Pude encontrá-lo uma vez. E, apesar de aparentar uns 16 anos, possui uma aura madura. Desconfio ser ele um homem de idade avançada que, de alguma forma, manifesta uma versão de sua juventude no mundo onírico.
Conversamos pouco e ele nada podia falar sobre sua existência mundana. Na verdade, pouco se lembrava de suas próprias aventuras.

E eram essas coisas que passavam na minha mente quando o imediato avisou-me que o navio estava pronto para partir.
A pouca bagagem que eu tinha já havia sido levada e encontrei-a encima da cama, na minha cabine habitual. Descansei um pouco deitado, examinando os detalhes entalhados na madeira das paredes e no teto. Símbolos de sorte e proteção, na maioria.

Então ouço uma batida na porta. Um dos tripulantes me informa que o capitão me convida à sua mesa para jantar em uma hora.

Era uma refeição simples, mas bem preparada. Consistia de pão, um caldo verde e carne seca.
Notei que era uma comida especial, pois o caldo do resto da tripulação era mais ralo e o pão era escuro.
Embora a alimentação não ser necessária a um mago sonhador no mundo onírico, seria um insulto recusar, além de gerar estranhamento a quem estivesse por perto.

Depois do jantar, o capitão apresentou uma garrafa de seu melhor vinho e conversamos até tarde.
Estranhei a ausência de seu jovem filho, mas em meio à conversa, esqueci de mencionar isso. Fazia muito tempo que não nos víamos e havia muita conversa para por em dia.
Falávamos sobre as rotas comerciais marítimas e por estradas, as várias formas de se chegar a lugares interessantes ou importantes, e também onde se hospedar e comer.

Apesar de jamais ter perguntado diretamente sobre minha origem, acredito que o velho capitão suspeite de minha condição.
Talvez por esse motivo me tenha em tão alta conta, e tornou-se o mais próximo do que posso chamar de amigo.

Ele contou também de coisas estranhas que ocorrem no mar por esses dias. Como ilhas e até continentes inteiros que surgem aonde antes era apenas o oceano. Disse ainda que algumas dessas ilhas tinham construções.
Mas detalhes ele não pode me dar, pois a tripulação evitou olhar para aquelas torres de alvenaria estranha, temendo que lhes causasse pesadelos ou coisa pior.

O Próprio capitão me dizia aquelas coisas com algum receio e confessou evitar aquelas águas a partir daquele dia.

Cinco dias depois de zarpar, o navio ancorou no porto de Ur. Podia-se ver por detrás das grandes muralhas que protegia a cidade, os telhados de terracota e os pináculos dos templos. Ao longe, encoberta pela névoa, quase não podia ser vista a torre do governo, onde vivia o governador.
Dizia-se que o governador não tinha forma humana. Fazia parte daquele povo que vivia nessa num passado extremamente remoto. Ele jamais saía da torre e passava suas ordens pelos monges que o atendiam.
Antes de desembarcar, fui despedir-me do capitão. Deixei com ele um pequeno baú de madeira e couro, onde guardo os objetos que descobri no mundo onírico. Chaves, amuletos e livros: Uma versão dos manuscritos Pinakóticos na língua dos povos do norte, um mapa detalhado e cheio de legendas e anotações, feitas por mim, dos lugares que visitei nesta terra e o “Livro do Sr. Carter”.

O Sr. Carter foi um sonhador que desbravou grande parte do mundo onírico. Viveu muitas aventuras e partiu em buscas perigosas.
Esse livro me foi, e ainda é, muito útil. Pois além da descrição dos lugares visitados por ele, tem ainda comentários sobre seus habitantes, criaturas e perigos de viagem.
Esse homem desapareceu em uma busca, mas tinha muitos conhecimentos e não duvido que reapareça algum dia.

Agradeci ao capitão pela viagem e ofereci alguns cristais azuis em pagamento, no que ele recusou prontamente. Disse que minha companhia foi um prazer e que guardaria meu baú com sua vida.

Ele desceu a rampa comigo até o cais. Foi quando me lembrei de perguntar pelo garoto que o acompanhava em suas viagens, que se maravilhava com minhas estórias de terras distantes e dos objetos estranhos que eu lhe mostrava.
Ao perguntar que fim ele teria levado, o capitão apenas sorriu e acenou. Pois tinha assuntos a tratar e eu também.

Então, saindo do porto e entrando numa rua com calçamento de vidro vulcânico, me desviava das lavadeiras que desciam a rua levando fardos na cabeça.
Procurava uma estalagem para me refazer da longa viagem, quando me veio como um estalo a verdade.
Aquele não era o velho capitão que conheci faz muitos anos, mas seu filho com quem eu conversava, já adulto e em seu lugar!
O tempo passa de forma diferente quando estamos no mundo onírico. Esqueci que anos devem ter se passado desde minha última visita.
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MensagemAssunto: Re: Devaneios   Qua 16 Mar - 17:48

Bom.
Agora que terminei essa parte, terminei em parte, na verdade, pois faltaria ainda uma última revisão, gostaria de explicar meu processo de criação.

Como podem ver, eu não crio uma linha temporal como o BK.
Sei meio vagamente o que está para acontecer e vou juntado.

Na verdade, considero que o método que o BK usa é muito útil, até fundamental.
Mas como não tenho as mesmas pretenções literárias, fiz de forma menos massante.

Usei algumas técinas (na verdade, muletas) literárias.
Comecei a estória depois do começo de verdade. O leitor nota que a estória já está em andamento.
Mas no decorrer do texto tudo é explicado de forma casual, não causando problemas de entendimento.

Outro ponto que achei interessante é que esse texto se escreveu sozinho.
Aproveitei meu conhecimento do universo lovecraftiano e peguei emprestado alguns conceitos.
Como Lovecraft é domínio público, não tenho com o que me preocupar se alguém mal intecionado ler esse texto.

Deixei separados os blocos de texto para que possam notar que o texto sempre está mudando.
Inicialmente é uma coisa, quando junto com o texto anterior dou uma mexida.

Por fim, acrescentei mulheres na estória, de forma sutil.
Embora não faça diferença para o entendimento, a ausência de mulheres sempre me incomodou nos contos de Lovecraft.
Talvez porque Lovecraft era produto de sua época, dava pouca importância para o sexo frágil.

Então é isso ai.
Não tenho motivos pra contunuar a estorinha, a não ser que alguém peça.
Só queria mostrar pra vocês como é que eu faço.
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MensagemAssunto: Re: Devaneios   Qui 17 Mar - 19:16

Vamos lá, amiguinhos.
Podem malhar.

Tenho auto estima suficiente pra não levar pro lado pessoal nem ficar chateado se voces disserem que ficou uma bosta.
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MensagemAssunto: Re: Devaneios   Qui 17 Mar - 22:56

Eu ainda não comentei por que não li, espero nesse fim de semana ter tempo pra isso.

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MensagemAssunto: Re: Devaneios   Dom 20 Mar - 18:47

Mohamed escreveu:
Vamos lá, amiguinhos.
Podem malhar.

Tenho auto estima suficiente pra não levar pro lado pessoal nem ficar chateado se voces disserem que ficou uma bosta.
Não, não tem não. Samucas

Mas em todo caso ... What a Face

A idéia parece ser interessante ,mas na maior parte do tempo fica faltando uma ambientação, um cuidado maior em acomodar o leitor no mundo ficcional. Não se puxa a cadeira pro leitor sentar , nem há descriminações sobre os pratos no menu.

Como uma animação que ainda não saiu da fase de pré-produção, faltam cores, sombras e texturas. Não há cheiros, peso, olhares, gestos, ação do tempo sobre rostos e objetos, vento, sol, lua, perfume, fedor, pensamentos, subjetividades. Fica algo corrido e artificial.

Não é preciso pra início de conversa abarrotar de detalhezinhos, descrevendo até a enésima casa decimal o pé torto da mesinha de centro.
Mas dar de vez uma ou outra polvilhada de canela no café com leite, pra não ficar com cara de relatório de ações do personagem, como está.
Pode ser que , por serem detalhes sigilosos que denunciam as andanças dele, o nome do navio ou capitão não possa ser dado.

Mas se o personagem :” esperar por um navio específico”, torne este navio um pouco mais especifico também ao leitor. Deixe ele, pequeno ou grande, novo ou velho, se aproximar lentamente do porto, em meio a uma nuvens de gaivotas atarantadas pelo apito grave e profundo do mesmo, antes do capitão surgir acenando na proa ,reconhecendo o velho amigo.

É meio frustrante certas passagens que parecem promissoras, mas acabam não se justificando, como a citação ao pintor no mundo onírico, que é músico no mundo real. Seria uma ótima ocasião pra incluir informações e uma pitada de mistério para o futuro, ou dar mais peso às diferenças entre o mundo real e o onírico, descrevendo o ateliê e as pinturas que nele existem: Que temas teriam, seriam racionais, que contraste trazem com o mundo do músico, trazem informações sobre a psique do personagem ?

Minha impressão, como leitor, é daquela do cara que vai numa visita com guia ao museu, mas o guia atrasou até quase o horário de fechar e o museu está em reformas. Então somos convidados a passar por salas, que até podem ser interessantes, mas forçados a passar muito rapidamente, vendo diversas placas de “fechado para obras”.

Na minha opinião (IMHO) , tu deveria soltar mais a mão. É mais fácil cortar do que esticar um texto. Tenho a sensação de que escreveu direto no pc. Experimente antes soltar o verbo no papel, sem tramelas ,escrevendo bobagens ,tudo que der na veneta sobre o tema. Use o pc na hora de filtrar o material. O meio influencia o ato, e as vezes diversificar o meio altera o produto final, pois cada um tem suas idiossincrasias , e o ato de rabiscar , reescrever, riscar ,rasgar é diferente de dar um Ctrl+del. Nem todos são samurais do teclado, se dando automaticamente bem com digitar direto no Pc.
Por exemplo, acrescentar blocos de texto às vezes muda a estrutura de tudo que foi escrito até em tão.

Como no caso do moleque(antes era só um moleque, na nova versão virou filho do capitão), que assumiu o lugar do capitão. Nota-se a clara preocupação de inserir informações no meio da última versão ,para justificar a errata do personagem ao confundir o novo capitão com o velho. Mas no afã de fazer esta conexão , se passa informações que quebram o inusitado da coisa , como o filho ser muito parecido com o pai.

Melhor mesmo que o garoto nem fosse parecido ou filho porra nenhuma. Isso da um caráter desconcertante, pois fica claro que nem o personagem ,sendo veterano, pode ter plena confiança em tudo, mesmo suas memórias no mundo onírico, cujas regras de passagem do tempo precisam ser melhor descritas ao leitor.(mesmo que não haja regra nenhuma, do tipo, não importa se apenas um dia tenha passado no mudo real, no onírico pode ter passado um dia, uma hora, um nano segundo , ou um século)

Mohamed escreveu:

“Além de peixe, comercializavam também objetos de vidro e de bronze que vinham de terras distantes e cereais de vilarejos mais próximos.”
Objetos de vidro e Bronze ? Quais ? De que qualidade, finalidade ?
Mohamed escreveu:

“Tinha uma conversa agradável e um vinho suave, mas muito potente.”

Você consegue substituir o “muito potente” por uma descrição sobre os efeitos da bebida em alguém que não seja acostumado a bebidas fortes ? Ou ao efeito da bebida no personagem na primeira vez que a tomou ?

E, mesmo sabendo que ainda haverá a revisão final ,durante as reedições você poderia ao menos ter revistos algumas incongruências, como tempos verbais e virgulas ambíguas, que incomodam quem , como eu, leu o texto em todas as versões, nas quais elas se repetiram .
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MensagemAssunto: Re: Devaneios   Seg 21 Mar - 9:38

Muito bom.
Revisão em breve.
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Mohamed
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MensagemAssunto: Re: Devaneios   Qui 31 Mar - 13:12

Pra quem esta acompanhand o textinho, peço desculpas pela demora.
Mas o trampo aqui ficou meio pesado e estou sem tempo pra ar a devida atenção.
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MensagemAssunto: Re: Devaneios   Seg 11 Abr - 11:14

Naquele porto se comercializava dois tipos de pescado. O pescado branco e o vermelho, sendo que o vermelho, mais raro, só era encontrado nos messes mais frios.
Na verdade o pescado branco era de três espécies diferentes, mas que tinham semelhante as águas que habitavam, o tamanho e a coloração.
O pescado vermelho era uma dessas espécies, que adquiria essa coloração na época da reprodução.

Além de peixe, comercializavam também objetos de vidro colorido e de bronze que vinham de terras distantes e cereais de vilarejos mais próximos.
Jarros , pratos, jóias e obras de arte em vidro leitoso eram produzidos ao sul e chegavam em caravanas de iaques trazidos por cambistas que trocavam víveres e materiais de consumo com os fabricantes de vidro.
Utilitários de bronze de toda sorte vinham das montanhas ao leste. Chegavam em carroças puxadas por pares de bois. Os homens que os conduziam eram altos de pele clara e vinham armados com espadas.
Conhecia aquelas montanhas e a viagem até o porto levava vários dias.

Fiquei duas semanas naquele porto, postergando minha partida.
Não que as tabernas ou acomodações fossem boas. Não eram.
Mas a idéia de me encontrar com outro sonhador me deixava nervoso.

A quase um mês, ao chegar na cidade azul, registrei-me na mesma pousada de sempre e lá havia uma carta endereçada a mim.
Ela havia chegado na semana anterior e não foi sem estranhamento que a recebi.
Estava escrito em português moderno, com algumas palavras em espanhol.
Isso eu achei realmente estranho, pois essas línguas, em sua forma escrita, eram desconhecidas naquele lugar.

Na essência, era uma carta anônima, visto que o remetente não assinava e nem se apresentava.
Dizia apenas ser um “colega desbravador de novos mundos”, que estava ansioso por conhecer-me e que teria muitas informações para trocar.
Que tipo de informações seriam essas ele não mencionava.

A principio fiquei preocupado. Seja quem fosse essa pessoa, tinha conhecimentos prodigiosos.
Porque encontrar uma pessoa no mundo onírico não é tarefa difícil. Basta ter os conhecimentos certos ou contratar quem os tenha.
Mas descobrir um lugar que ainda vou estar requer investigação ou uma linha divinatória desconhecida.

Depois de muito refletir sobre esse estranho acontecimento, decidi ir ao encontro dessa pessoa e descobrir o que ele queria de mim.
Apesar de apreensivo, pois podia ser algum tipo de armadilha, minha curiosidade por fim impeliu minha viagem.
Seria uma busca como tantas outras que fiz no mundo onírico, procurando tomos ancestrais, fórmulas mágicas ou objetos obscuros.
Agora o objeto da busca tomava a forma de uma pessoa, ou algo próximo disso.

Poderia ter partido antes, mas preferi esperar por um navio específico, ao qual eu conhecia o capitão.
O Peixe-Espada era uma nau construída no estilo antigo. Tinha o castelo da popa alto e uma proa larga, indicando sua função de navio mercante.
Tinha três velas quadradas em dois mastros, sendo que a terceira vela era para ventos mais fortes e, portanto raramente desfraldada.
Não conheciam velas triangulares. O que dava ao navio um aspecto medieval.

Homem do mar experiente. O capitão tinha uma conversa agradável e um vinho suave, mas muito potente.
Diferente do vinho consumido no continente, ao qual misturavam água para beber, esse era de uma qualidade muito superior. Produzido em sua terra natal, a garrafa só era aberta em ocasiões especiais. Seria uma heresia, um insulto, portanto, diluí-lo antes de beber.

Ele navegava pela costa e só raramente fazia um transporte ultramarinho. Por isso não demoraria mais de duas semanas para voltar ao porto, caso já tivesse partido.

Numa de minhas rondas pelo porto no período da manhã avistei suas velas amarelas e fui em direção ao local onde estava ancorado.
Reparei que a tinta da mureta entalhada estava desgastada a ponto de eu reconhecer levemente os traços de branco, verde e azul. Até o nome do navio estava apagado e só podia ser lido com algum esforço. Os olhos pintados na proa, por outro lado, estavam com as cores bem vivas e um pouco maiores do que eu me lembrava, indicando que fora pintado recentemente.

O velho capitão estava como eu me lembrava dele, seu casaco bordado talvez estivesse mais velho e puído nas mangas, mas o reconheci imediatamente. Não reconheci, estranhamente, nenhum dos tripulantes.

E notei uma ausência: Lembrava do filho do capitão, rapaz esperto e curioso. Muito parecido com o pai. Passava o dia na proa, junto aos marinheiros. Adorava minhas estórias e eu gostava de contá-las.
As pessoas simples dos vilarejos não gostavam dessas conversas, os assustava ou desconsertava saber que não longe fora dos limites de suas cidades haviam perigos e maravilhas ancestrais.
Bons ouvidos são difíceis de encontrar, seja no mundo onírico ou no mundo desperto.

O capitão acertava preços com um comerciante enquanto a tripulação descarregava uns fardos que imaginei serem de lã.
Me aproximei quando a negociação terminou e cumprimentei-o com uma saudação de marujo.
Ele ficou bastante surpreso e também muito feliz. Mas não podia conversar naquele momento. Pediu que eu esperasse numa adega próxima, de onde eu podia observar os trabalhos.

Como não sabia o que esperar desse encontro com o outro sonhador, deixaria meus instrumentos na guarda do meu amigo capitão.
Se algo desse errado ou se o outro sonhador se mostrasse um inimigo, eu teria como voltar ao ponto de partida e manter minhas memórias do acontecido.
Nesse tipo de aventura o perigo está sempre próximo e já tinha experiência o suficiente para tomar algumas precauções.

Existiam seres antigos que não aprovavam nossa presença neste plano. Consideram uma invasão e, quando descobrem um sonhador, tentam aprisioná-lo ou matá-lo. Seja por suas próprias forças ou com ajuda de servos.
Essa carta bem poderia ser parte de um esquema para me capturar. Ou pior. Por isso separei de meus instrumentos um punhal curto de prata branca, que segundo descobri, podia ferir até seres incorpóreos.
Não que eu esperasse algum tipo de luta, nunca o usei para este fim. Geralmente o simples fato de eu levá-lo comigo já era suficiente para afastar essas criaturas.

Já tinha ouvido falar de outros sonhadores que vagavam pelo mundo onírico em busca de conhecimento ou aventuras.
Embora nunca tenha encontrado um sonhador consciente, conheci alguns que não guardavam lembranças de suas vivências do mundo onírico no mundo desperto.

Numa das ilhas ao norte do continente vive um pintor. Encontramo-nos algumas vezes e conversamos longamente.
Ele consegue captar na tela um realismo impressionante das paisagens que pinta. Os camponeses o evitam por sentirem nele algo que não sabem dizer.
No mundo desperto ele é um músico canadense.
Suas contrapartes, a onírica e a mundana, desconhecem uma à outra.

Se a sua música é inspirada pelos quadros que pinta, ou o contrário. Não sei dizer.
Depois de um desses nossos encontros, despertei e o procurei, com a ajuda da internet, por seu alterego no mundo da vigília.
Compositor de fama local, não foi difícil encontrá-lo. Fingindo-me um empresário do ramo artístico, insinuei algumas perguntas por telefone. Esperava algo que mostrasse alguma lembrança de suas atividades no sonhar.

Dizia ele que acordava inspirado e começava a compor, mas nunca se lembrava do que havia sonhado. Já era assim a tanto tempo que isso nem o preocupava mais.
Não insisti nas perguntas para não incomodá-lo. Também não questionei seu Eu onírico sobre esse assunto.
Existem coisas que devem permanecer como estão.

Existe um jovem, que vive próximo às florestas de Uthar, que combate os repdantes que descem as colinas para saquear os vilarejos.
Eventualmente é morto por eles, e reaparece alguns dias depois como se nada tivesse acontecido.
Pude encontrá-lo uma vez. E, apesar de aparentar uns 16 anos, possui uma aura madura. Desconfio ser ele um homem de idade avançada que, de alguma forma, manifesta uma versão de sua juventude no mundo onírico.
Conversamos pouco e ele nada podia falar sobre sua existência mundana. Na verdade, pouco se lembrava de suas próprias aventuras.
Fiquei curioso em saber o porquê de suas ‘mortes’ não serem tão traumáticas para ele. Um sonhador que morre no mundo onírico pode morrer também em sua cama, no plano mundano.

E eram essas coisas que passavam na minha mente quando o imediato avisou-me que o navio estava pronto para partir.
A pouca bagagem que eu tinha já havia sido levada e encontrei-a encima da cama, na minha cabine habitual. Descansei um pouco deitado, examinando os detalhes entalhados na madeira das paredes e no teto. Símbolos de sorte e proteção, na maioria. O navio se pôs em movimento ao som das ondas e gaivotas..

Então ouço uma batida na porta. Um dos tripulantes me informa que o capitão me convida à sua mesa para jantar em uma hora. Termino de acomodar meus instrumentos, ou ‘ferramentas de sonhador’ no baú, aproveitando para inspecioná-los rapidamente.

Era uma refeição simples, mas bem preparada. Consistia de pão, um caldo verde e carne seca.
Notei que era uma comida digna da mesa do capitão, pois o caldo do resto da tripulação era mais ralo e o pão era escuro.
Embora a alimentação não seja necessária a um mago sonhador no mundo onírico, seria um insulto recusar, além de gerar estranhamento a quem estivesse por perto.

Depois do jantar, o capitão apresentou uma garrafa de seu melhor vinho e conversamos até tarde.
Tinha cheiro de amoras e nos foi servido em pequenas taças de cristal. Era o mesmo vinho de que me lembrava e rapidamente fez seu efeito.
Não deixou minha cabeça pesada e sonolenta como os vinhos que se bebiam nas tavernas portuárias. Pelo contrário, me deixou com uma sensação de leveza com ótimo humor, perfeito para uma noite de conversas.

Embalado pelo vinho, desfrutei o prazer simples de algo muito raro para mim: uma conversa franca.
Falávamos sobre as rotas comerciais marítimas e por estradas, as várias formas de se chegar a lugares interessantes ou importantes, e também onde se hospedar e comer.
Ele me contou de uma nova estalagem na rota dos tecidos e reclamou do aumento que considerou abusivo do valor das taxas para fazer comércio com os habitantes dos burgos. Mas esses eram assuntos frívolos que serviam apenas de aquecimento. O mar estava bem calmo e o céu limpo daquela noite propiciava tranquilamente a navegação pelas estrelas.

Apesar de jamais ter perguntado diretamente sobre minha origem, acredito que o velho capitão suspeite de minha condição.
Talvez por esse motivo me tenha em tão alta conta, e tornou-se o mais próximo do que posso chamar de amigo.
Depois de algumas horas de agradável conversa, o rosto de meu anfitrião ficou mais sério.
Ele contou de coisas estranhas que ocorrem no mar por esses dias. Como ilhas e até continentes inteiros que surgem aonde antes era apenas o oceano. Disse ainda que algumas dessas ilhas tinham construções.
Mas detalhes ele não pode me dar, pois a tripulação evitou olhar para aquelas torres de alvenaria estranha, temendo que lhes causasse pesadelos ou coisa pior.

O Próprio capitão me dizia aquelas coisas com algum receio e confessou evitar aquelas águas a partir daquele dia.

Cinco dias depois de zarpar, o navio ancorou no porto de Ur. Podia-se ver por detrás das grandes muralhas que protegia a cidade, os telhados de terracota e os pináculos dos templos. Ao longe, encoberta pela névoa, quase não podia ser vista a torre do governo, onde vivia o governador.
Dizia-se que o governador não tinha forma humana. Fazia parte daquele povo que vivia nessa num passado extremamente remoto. Ele jamais saía da torre e passava suas ordens pelos monges que o atendiam.
Antes de desembarcar, fui despedir-me do capitão. Deixei com ele um pequeno baú de madeira e couro, onde guardo os objetos que descobri no mundo onírico. Chaves, amuletos e livros: Uma versão dos manuscritos Pinakóticos na língua dos povos do norte, um mapa detalhado e cheio de legendas e anotações, feitas por mim, dos lugares que visitei nesta terra e o “Livro do Sr. Carter”.

O Sr. Carter foi um sonhador que desbravou grande parte do mundo onírico. Viveu muitas aventuras e partiu em buscas perigosas.
Esse livro me foi, e ainda é, muito útil. Pois além da descrição dos lugares visitados por ele, tem ainda comentários sobre seus habitantes, criaturas e perigos de viagem.
Esse homem desapareceu em uma busca, mas tinha muitos conhecimentos e não duvido que reapareça algum dia.

Agradeci ao capitão pela viagem e ofereci alguns cristais azuis em pagamento, no que ele recusou prontamente. Disse que minha companhia foi um prazer e que guardaria meu baú com sua vida.

Ele desceu a rampa comigo até o cais, mas se deteve junto aos engradados que a tripulação descarregava. Tinha assuntos a tratar com os comerciantes que já se aproximavam e eu tinha uma jornada para continuar.

Me despedi de meu amigo capitão e, saindo do porto e entrando numa rua com calçamento de vidro vulcânico, fui à procurava uma estalagem para me refazer da viagem e me refrescar com um banho.
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Mohamed
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MensagemAssunto: Re: Devaneios   Seg 11 Abr - 17:25

Pronto.
Eis o texto com as correções devidas.

Espero que tenha melhorado.

Se o BK nem comentou é que deve estar ruim demais e ele resolveu poupar o camarada.
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